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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Guia de promoção de resiliência.

* Cenise Monte Vicente

Índice
1. Introdução
2. Planejamento
3. Recomendações para a vida cotidiana

Introdução
Resiliência é um termo utilizado para definir a capacidade humana de passar por experiências adversas sucessivas sem prejuízos para o desenvolvimento.
Algumas pessoas, cujas biografias foram marcadas por tragédias acumuladas, chamaram a atenção dos estudiosos da psicologia do desenvolvimento pelo modo de responder às dificuldades e de transformar tais eventos em promotores de habilidades para a vida.
Para afirmar que o desenvolvimento das potencialidades do sujeito não foi afetado negativamente pelas situações de risco vividas, proponho identificar se o sujeito é capaz de amar, de trabalhar e se assume seus direitos e deveres como cidadão.
Resiliência é um termo utilizado para definir a capacidade humana de passar por experiências adversas sucessivas sem prejuízos para o desenvolvimento
Pensei em propor este guia: um conjunto de recomendações para operadores sociais que trabalham com crianças e adolescentes cujas vidas são marcadas pela violência.
Acredito que estas sugestões possam ser úteis especialmente para os jovens que responderam de modo irado às condições adversas de suas vidas. Quando o sistema é destruidor, aquele que manifesta à ira revela ter preservado aspectos fundamentais da condição humana. Existe um acúmulo de conhecimento sobre resiliência que nos permite afirmar que é possível promovê-la.
A resiliência é um fenômeno psicológico construído e não é tarefa do sujeito sozinho. As pessoas resilientes contaram com a presença de figuras significativas, estabeleceram vínculos, seja de apoio seja de admiração. Tais experiências de apego permitiram o desenvolvimento da auto-estima e da autoconfiança.
Outro motivo para a elaboração deste trabalho é o entendimento de que estamos diante de uma ferramenta, um conceito com potencial de instrumentalizar os trabalhadores da área da infância para a educação, para a vida e para a cidadania.
A resiliência tem uma dimensão ética que não pode ser negada. Ela só é possível quando existe esperança no futuro e quando existe um sentido anunciado, uma meta, um horizonte ético que nos coloca para frente. Um dos fatores de destruição do trabalho de um educador social ao lidar com vidas difíceis é a descrença que nasce do modelo do dano, no qual predomina a observação apenas dos problemas e das dificuldades, algumas vezes com muita precisão, mas que não insere na análise qualquer perspectiva ou alternativa de resolução.
O modelo fundamental para o desenvolvimento da resiliência é o modelo do desafio, no qual tanto o reconhecimento do problema quanto das soluções estão presentes. A promoção da resiliência, portanto, serve não apenas aos meninos e às meninas em dificuldade, mas à toda comunidade comprometida com estas vidas.
O primeiro grande passo diz respeito à própria equipe. Boa parte do problema tem relação com as dificuldades do próprio mundo adulto que fracassou com estes jovens
A equipe realiza seu trabalho em determinado contexto institucional. Ao chegar às instituições, as pessoas encontram muitas rotinas, regulamentos, tradições, modos de compreensão e de relacionamento estabelecidos. As instituições têm memória, mas nem sempre ela é explícita ou consciente: muitas vezes são gestos que se repetem e ninguém sabe explicar a origem. É neste ponto que o Estatuto da Criança e do Adolescente encontra enormes dificuldades de implantação, já que ele exige a criação de um repertório novo.
O antigo repertório do Código de Menores explicava-se pela função do internato - exclusão ou seqüestro social, associada a uma dinâmica centrada na vigilância e na punição. A distância da comunidade permitia o pacto de omissão e silêncio, enquanto na clausura só restava aos presos transgredir ou acatar a morte civil em silêncio.
A construção de um repertório novo dependerá da capacidade criativa e democrática da comunidade institucional, incluindo aí seus destinatários e suas famílias.
O objetivo deste Guia é de colaborar com alguns elementos necessários neste processo de transformação.
Planejamento
Um cotidiano democrático exige construção de atitudes pouco freqüentes em nossos repertórios. Esta construção passa por sensibilização, compreensão e treinamento
A equipe deve definir suas metas, imaginar o futuro, estabelecer objetivos realizáveis, que sejam ao mesmo tempo "abrangentes e detalhados". A meta transversal, aquela que deve permear todas as demais, é a construção de um ambiente solidário e promotor do potencial de todas as pessoas envolvidas no trabalho, seja na condição de operador seja como destinatário.
Planejar de modo democrático e participativo possibilita que todos os setores participem da construção do quê fazer. Permite que os diferentes atores institucionais conheçam os problemas e construam as soluções que serão implementadas, dando sentido para suas ações e inserindo-as num conjunto articulado voltado para metas comuns.
A experiência de planejar deve sempre contemplar os períodos de avaliação, na qual as operações, o cronograma e os responsáveis possam ser discutidos com todo o grupo avaliador. Com os resultados parciais avaliados é possível corrigir o plano de trabalho. Planejar/avaliar/planejar permite romper com o modelo do dano, pois o famoso discurso do "é muito difícil" deve ser substituído pelo "podemos fazer".
Planejar não dispensa o treinamento. Os hábitos e os modos de responder às situações de conflito têm uma matriz muito autoritária em nosso país. Um cotidiano democrático exige construção de atitudes pouco freqüentes em nossos repertórios. Esta construção passa por sensibilização, compreensão e treinamento. A capacitação permanente da equipe é um elemento fundamental na formação dos operadores.
Recomendações para a vida cotidiana
1) A construção do sentido
As condições adversas de vida podem levar as pessoas a uma atitude existencial provisória, um modo de ocupar-se apenas com o presente baseando-se numa atitude fatalista, de que "não tem jeito", "não adianta".
A construção do sentido é acompanhada da introdução do futuro. Mas, este futuro precisa ser experimentado, por isso os projetos iniciais têm que ser de curto prazo, viáveis e concretos. As atividades lúdicas, a organização de uma festa, de um campeonato, permitem que o potencial se expresse e, simultaneamente, haja prazer ou satisfação.
2) Calendário Baiano
Tão logo uma atividade tenha sido realizada, uma nova deve mobilizar o grupo, de modo a introduzir novos sentidos. A sucessão de sentidos pode solicitar atitudes diferentes, pode criar possibilidades de novos destaques, pode criar espaço para que uma aquisição recentemente adquirida possa aprimorar-se e oferece novos papéis, retirando os envolvidos das estereotipias freqüentes nas experiências crônicas.
O futuro, a auto-estima e a autoconfiança estão sendo trabalhados pela tarefa.
3) O sentido e o lugar no mundo
Junto com a construção da vontade de sentido, podemos fomentar na criança e no jovem um projeto de lugar no mundo, no futuro. Os jovens que não conseguem imaginar seus futuros são os mais frágeis. Se o futuro não existe, ou se a pessoa não "ocupa" um lugar no mundo no futuro, não há esperança, não há desafio.
4) O ensino fundamental e o sentido
Muitos jovens não conseguem entender para que serve o conhecimento. Fica difícil dedicar-se a algo cuja finalidade não está clara ou que não tem gancho com a vida e a perspectiva do aluno.
Devido a isto, torna-se fundamental estabelecer os nexos entre as matérias básicas e as profissões. Assim, o aluno pode entender para quê serve à matemática, a língua portuguesa, as ciências, pois, junto com estes saberes, existem modos de estar no mundo, por meio da produção. Cria-se uma ponte entre o ensino, o mundo e o futuro. Aprender passa a fazer sentido pessoalmente.
5) A auto-estima
Muitos meninos têm uma auto-imagem negativa. Cresceram ouvindo "profecias" extremamente negativas e desqualificadoras. A equipe que desejar desenvolver no jovem amor por si mesmo e pelos demais precisa desconstruir a imagem que o menino trouxe. Esta desconstrução não é difícil. Dependerá do olhar da equipe para as qualidades e potencial do jovem.
6) Cuidar-se e cuidar
Os cuidados com o próprio corpo têm um importante papel na promoção da auto-estima. Estimular a capacidade de cuidar de si mesmo. E simultaneamente fomentar os cuidados com os ambientes onde o cotidiano transcorre. A dimensão estética, as cores, as formas e a construção de "coisas belas" devem ser estimuladas. É claro que esta estética virá marcada pelos interesses da adolescência, da cultura, da época, mas o que nos interessa é o movimento de preservação, de carinho, enfim, da autopreservação.
7) Livro de ocorrências novo
Nas instituições, existe sempre um registro das chamadas "ocorrências", destinado a anotar os problemas, os erros, as brigas, as medidas adotadas frente aos conflitos. Este livro precisa mudar de enfoque.
Quando o menino acerta, quando eles se entendem, quando revelam suas qualidades e interesses, onde fica o registro? Precisamos começar a anotar as soluções, as possibilidades.
Se esta mudança é estabelecida, começamos a fazer profecias positivas e o adolescente tem a oportunidade de mudar sua auto-imagem e sua postura.
8) Os gestos anti-sociais
Quando o menino ou menina são agressivos ou "inadequados", o que fazer?
Antes de atribuir os motivos do jovem e condená-lo com alguma medida disciplinar, precisaram entender o acontecimento. Entender suspendendo a tendência de classificar entre certo e errado, bom e mau. A maioria destes atos expressa um pedido de socorro ou um fragmento importante da vida do sujeito.
Compreender uma conduta fora do campo onde ocorreu é impossível. A biografia e o contexto são fundamentais.
9) Não contra-atuar
Quando algum direito fundamental está ameaçado, como, por exemplo, o direito de aprender, os programas podem desenvolver um SOS
Quando o jovem apresenta um comportamento disruptivo, é muito freqüente que a resposta correspondente do operador seja uma espécie de espelho. Se o menino está, por exemplo, nervoso, o educador entra na cena como um complementar, fazendo com que aquela atualização de algo biográfico ou pedido de socorro se transforme em questão disciplinar e não numa possibilidade de diálogo e elucidação das origens da atitude.
10) Desaquecendo as cenas
Estes momentos de tensão são quentes, dominados por escassa disposição para ouvir e compreender. São necessários procedimentos de desaquecimento. Além de não complementar a cena violenta, o operador deve facilitar a expressão verbal de todos os protagonistas, retirar o conflito da dimensão dramática e introduzi-lo num campo do diálogo, no qual poderá ocorrer elaboração.
11) As pequenas alegrias
Momentos de conversas coletivas, de cantoria, de leitura em grupo, de narrativa popular podem ser momentos de restauração, de trégua e também de elaboração. As histórias têm sempre uma mensagem, uma lição. Mas, a atmosfera criada nestas atividades talvez sejam mais importantes do que o recado verbal. É a melodia da canção.
12) Humor
O bom humor indica flexibilidade, plasticidade mental. Revela a capacidade de fazer de conta, de olhar as coisas com certa distância, com crítica. Tal capacidade associa-se à capacidade de rir. O riso indica certo distanciamento dos fatos, cria a possibilidade para que os eventos possam ser entendidos sem afetar a pessoa de modo imediato.
Aprende-se a relativizar.
13) Sistema de Socorro
Quando algum direito fundamental está ameaçado, como, por exemplo, o direito de aprender, os programas podem desenvolver um SOS. O sistema de socorro deve atender a todos os envolvidos na situação de "risco": operadores e educandos.
Muitas situações resultam em exclusão ou expulsão. Se este movimento puder ser substituído por processos de reinclusão qualificada, todo mundo aprende.
14) Direito à ternura
Os vínculos são muito importantes para a vida. Bebês morrem de carência quando não são amados. O afeto é tão importante quanto às vitaminas. Ele envolve um campo novo, que é difícil de expressar em lei. Trata-se do direito à ternura.

* Cenise Vicente é psicóloga, foi oficial de projetos do UNICEF e presidente do Conselho da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI). Atualmente é diretora da empresa de consultoria Oficina de Idéias e coordenadora do Projeto Envolver da Rede Social São Paulo.

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